terça-feira, 10 de novembro de 2009

guia para entrevista em talk show

Merzbild Rossfett, Kurt Schwitters

― então, quantos filhos?
― quatro.
― quantos quartos?
― três, o meu, o das crianças e o da visita.
― mulher?
― tem que ter peito.
― peito?
― não malho.
― é vegetariano?
― sim, planto meus frangos.

― falar de vida pessoal agora. como foi morar fora do país?
― ótimo. o paquistão é um país bonito.
― não teve medo?
― sim.
― e a islândia?
― fantástica. eles servem cabeça de ovelha.
― e o idioma?
― lá também não tem mcdonald's.
― sério?
― íslenska er ekki auðveld.

― certo, um pouco de vida profissional...
― não tenho.
― como vive?
― vegeto. sou vegetariano.
― isso é uma crítica?
― não.

― rapidinhas.
― sexo, só com preliminares.
― ¬¬
― ...

― persona grata.
― bæ.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

sincretismo

ou Prece de um Sertanejo ao Orixá

Exumaré, Carybé

cabe um cheiro na garrafa vazia de água
cheia de cheiro do vazio
em que cabe o que cheira à agua
à água de cheiro

candomblé
aguaceiro

a planta do orixá
oxalá há de chover
e a planta molhar
oxalá, meu pai, oxalá
cá no mar tem Iemanjá
e não precisa de chuva
nem tem planta
nem molhar

oxalá
cheiro de chuva

mande a água, meu deus
sem nome nem maiúscula
sou anônimo nem grande
nem nunca vi o mar
e o cheiro de água
quem me dera, oxalá

cheiro de chuva
aguaceiro

oxumaré, meu deus
oxalá atenda
esse meu orixá
que me mande sua água de cheiro
seu cheiro de chuva
sua chuva de água
água de chuva, oxalá

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

sem título vi

Les Six Éléments, René Magritte

este será o sexto poema do mês
o sexto elemento de Magritte
o simulacro do já espectro éter
o além-horizonte
transcendência da essência
absoluto inominável

o que nem Platão conseguiu pensar
o que a razão humana, sequer, alcançar
quando o poeta é reticente

terça-feira, 20 de outubro de 2009

sem título v

L'Ange du Foyer ou le Triomphe du Surréalisme, Marx Ernst

este será o quinto poema do mês
a quintessência da poesia
de um mês na quinta colhendo lirismo e lírios
vendendo-os todas as quintas-feiras
nas feiras de quinta, qual a dita poesia
feita de lírios, não mais que de lírios

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sem título IV

Friedrich Nietzsche, Edvard Munch

Qual a poesia que tem
uma latinha largada na rua?
.......A priori, nenhuma.
.......Pergunto, porém,
qual a poesia da mulher nua?

É pau, é pedra, é uma lata de cerveja
e não há um poeta que esteja
com ela em seus versos.
Quanta ironia:
o poeta está bêbado em sua cama
mas bebedeira é palavra feia
e eles estão ébrios, o são de vinho e amor,
escrevem, deitados no passado,
numa pieguice incabida no hoje.

Clássicos são livros de consulta.
Há os que os façam bíblias.
Se soubessem o que disse Nietzsche,
se ao menos suspeitassem,
se deus não estivesse morto,
se a verdade estivesse nos olhos da mãe,
seria escusado versejar o amor
como não existissem vicissitudes
e a essência jazesse em etéreos sonetos.

 
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